Como toda história vivida por pessoas pobres e simples, passa despercebida, sem valor, assim também aconteceu com a comunidade Santa Lúcia. Sua história não consta nos livros oficiais, mas está gravada na memória de algumas pessoas de maior idade que prontamente passaram a contar-me.

Tudo aconteceu assim. Francisco Lucca, Senhor de muita fé, doou a imagem de Santa Lúcia e com ajuda dos vizinhos, construíram o primeiro capitel. Era muito pequeno, feito de tábuas lascadas. Isso foi a mais de 110 anos atrás. As famílias se reuniam aos domingos para rezar o terço e Seu Francisco fazia a reflexão bíblica com a comunidade.

Há mais ou menos 105 anos, os devotos de Santa Lúcia foram aumentando e a comunidade, em mutirão, construiu uma pequena igreja de madeira, com assoalho, coberta de tabuinhas e com bancos. Nos finais de semana eram feitas as celebrações e durante a semana funcionava como escola. Pois as famílias eram numerosas e pobres e não existia transporte para se deslocar para outro lugar.

A Igreja envelheceu, as madeiras apodreceram, mas a comunidade formada por famílias muito pobres continuou unida. Em 1962 construíram uma nova igreja. Novamente em mutirão, os pobres se juntaram. A família Censi fabricou tijolos especiais com argila da melhor qualidade especialmente para fazer a igreja. Alecio Doci, marceneiro, plainou as madeiras para o forro. Outros membros da comunidade foram até o rio da várzea buscar areia e outros ainda buscaram barro, cimento e madeira. Enfim, toda a comunidade se empenhou e, inclusive moradores das comunidades vizinhas também participaram. O Sr. Lauri Pingüello era o construtor e coordenador da comunidade. Todo o trabalho de construção era comandado pelos Senhores Ulisses Araújo e Silva e Arcides Piva que incansavelmente deixavam seus próprios afazeres para se dedicar aos serviços da comunidade.

Nas festas em honra a Santa Lúcia vinham peregrinos de muitos lugares para celebrar, pedir graças e agradecer. A comunidade não tinha estrutura física para acolher os visitantes, mas acolhia a todos com muito carinho e atenção. A família Piva e as demais famílias sempre se empenharam para que a comunidade se mantivesse unida e forte. A Senhora Lourdes Maria Censi afirmou: “esta sempre foi uma igreja dos pobres feita pelos pobres que vinham em procissão buscar bênçãos, forças e proteção de Santa Lúcia”.

O amor, a devoção e o carinho á Santa Lúcia foram sendo moldados ao longo destes anos de luta e sofrimento deste povo que integrou a comunidade e fortalecidos ainda mais nas horas de dificuldades, doença e dor. Percebi a fé vivida de uma forma muito intensa por essas pessoas que compartilharam sua história comigo.

Agradeço aos casais Arcides e Antonieta Piva, Idemarco e Lourdes Maria Censi, que ainda moram aqui, e o Alecio Doci que atualmente mora em Saudades do lguaçú /PR.

Ao mesmo tempo em que essas pessoas lembram dos acontecimentos bonitos e alegres que a comunidade viveu, também lembram com sofrimento que há sete anos sua igreja foi fechada. E com isso as famílias, indignadas, foram se afastando, perdendo a unidade. A igreja que acolhia tantas pessoas que vinham com fé buscar forças aos pés de Santa Lúcia, agora serve como local de meditação e oração em nosso Espaço Terapêutico Vitaliza. Enfim, de uma forma ecumênica, todos poderão buscar ali forças para continuar sua caminhada, em um local que possibilita oportunidades de harmonização para muitas pessoas.

Segundo os depoimentos colhidos, esta é a comunidade mais antiga do Município de Constantina.


Constantina
, RS, Brasil, 05 de abril de 2004.

 
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